PARTE I
as plataformas espaciais eram prateadas, e a corrosão da via-láctea remoía as peças de metal lentamente: o outrora cromado se transformava em um laranja sifilítico, como seus cabelos. o ar de cianureto obrigava todos a usarem armaduras de lata e capacetes envidraçados. não, ela não. tomava whisky quente e estava muito além de preocupações. o whisky tem sua poética. para ela, só matava a sede.
“ei, ruiva, vem cá, vem, vamos conversar.”
“sai.”
“ei, meu bem, o que um homem precisa ter pra tentar te domar?”
“coragem, arrogância, magia e um pouco de melancolia.
“ninguém tentava. a última ruiva. quem seria capaz? cabelos reluzentes, pelas ruas tristes da cidade triste. e naqueles tempos as ruas estavam realmente tristes. não se encontrava magia. não se encontra magia. alguém realmente precisa chamar a minha atenção. bem, era a última ruiva. desfilava por calçadas sujas. não precisava de holofotes ou passarelas ou fotógrafos. toda ruiva. pernas, as mais belas pernas. oh, mundo, curve-se às minhas pernas. vocês podem até tentar, mas vocês nunca serão assim, junkies. eu tenho as pernas lisas e compridas, lisas e compridas e macias como sabonete molhado, e vocês não vão me tocar.
calma aí, baby, não é bem assim, eu digo
posso transar todas as mulheres do mundo
(embora eu perca a paciência e a vontade antes disso acontecer)
é. é mesmo. vocês enjoam
com suas
grandes
preocupações
birras
frescuras
razões
problemáticas
frustações
e com seus
MINIMALISMOS DESNECESSÁRIOS.
meu bem, pensei, eu daria conta de ti com apenas alguns bons tapas.
na verdade, alguns vários tapas.
todas vocês precisam de uns tapas no rabo, só pra ver quem manda.
*quarto*
tudo isso é meu, benzinho?
é.
*eu*
bem, pensei, a ruiva não passa de uma metáfora de todas as mulheres que nunca vou conhecer, mas que quero encontrar. uma mulher mais arrogante e mais melancólica que eu, que tenha alguma ostentação a me passar, e não baixe a cabeça pra me ouvir. que me olhe nos olhos, no fundo deles, e me faça acreditar que não posso resolver toda a merda com alguns tapas no rabo, como funciona com a maioria. mulheres vivas que eu nunca conheci, em contraponto a todas as vivas-mortas que já passaram por mim, e que hoje me cansam.
ou foda-se.
ela existe
e ela esta por aí
e
eu vou buscá-la.
FIM, ou o início da minha busca
(eu vou buscá-la.)